A Nossa História
A história de um grupo de trabalho ou de um gabinete de projecto é tanto mais interessante quanto é também a história do país onde se insere da sua evolução social e cultural, da evolução da tecnologia, e da interacção com o mundo onde vivemos.
Década I 1980-1990
Nascemos em 1980, seis anos depois da revolução do 25 de Abril, quatro anos depois da institucionalização do Poder Local democrático e dois anos antes do reconhecimento legal da figura do Plano Director Municipal. Foi com quatro estiradores, duas secretárias, uns tantos esquadros e réguas, escantilhões, algumas folhas de decalque de letras, lapiseiras e minas, grafos, ponteiras rotring um telefone, uma máquina de escrever e um frigorífico com mais de 30 anos que abrimos a nossa actividade na Rua da Beneficência. O atelier chamou-se OA – Oficina de Arquitectura a que se somou o urbanismo e as imagens visuais.
Foram sócios fundadores Jorge Silva, Francisco Sequeira, João Seguro e José Manuel Fonseca.
Contexto social
Os grandes problemas urbanos de então residiam no afluxo crescente de populações rurais às cidades estendendo as periferias com mantos de loteamentos ilegais e construções “clandestinas”, sem qualquer infra-estruturação ou equipamentos e que a mudança das condições sociais e económicas geradas pelo 25 de Abril tornara uma tendência irreversível, imparável e dificilmente reparável.

Era o tempo de acudir com urgência às necessidades básicas das populações: acessos, abastecimento de energia eléctrica, iluminação pública, água canalizada, esgotos, estradas, escolas, equipamentos sociais de saúde, etc. Era todo um país que estava a acontecer sem programação, sem planeamento nem instrumentos legais de contenção. O sistema administrativo estava em construção e os únicos agentes reguladores que estavam no terreno eram as autarquias desprovidas de meios técnicos e legais. Mas era também o tempo da organização e mobilização popular. Toda e qualquer acção era fortemente participada. Residia aí, precisamente, a maior força que era preciso alavancar e canalizar para a (re)organização territorial. Em todo o país se multiplicaram Comissões de moradores, Associações de moradores, Cooperativas de Habitação, Operações SAAL.
Recursos tecnológicos
Nesse tempo, relembramos, que os instrumentos de trabalho de um gabinete assentava nos estiradores, máquinas mecânicas de apoio ao desenho e sistemas de cópias heliográficas para reprodução dos desenhos elaborados sobre papel transparente e revelados com amoníaco. As fotocopiadoras baseadas na impressão em papel térmico limitadas na dimensão A4, não serviam para reproduzir desenhos e só excepcionalmente eram utilizadas. Os telefones eram fixos. Os PBX permitiam estabelecer uma rede interna de comunicações. Escreviam-se as memórias descritivas em máquinas dactilográficas sobre papel vegetal marcado com papel químico amarelo para ter uma boa leitura na máquina heliográfica onde em ambiente saturado de amoníaco se reproduzia individualmente cada folha. Quando a reprodução era em grande número, recorria-se ao Stencil, – folha coberta a cera cujo texto a reproduzir ficava marcado por percussão pela máquina dactilográfica e era utilizada numa espécie de rotativa para imprimir vários exemplares com uma qualidade bastante deficiente. Não havia fax e muito menos SMS, pelo que a única forma de fazer chegar uma mensagem escrita instantânea à distância era o telegrama ou o Telex que se vulgarizou nos mais apetrechados gabinetes. O Telex assemelhava-se a uma máquina de escrever ligada a uma rede telefónica que podia ligar a qualquer outro terminal no mundo. Transmitia caracteres mas que não transmitia qualquer imagem.

A nossa vivência profissional
Esta dinâmica organizativa tinha uma expressão territorial que exigia uma forte interacção entre os técnicos de planeamento e o conjunto dos agentes e interesses actuantes no território. As reuniões com as populações nos locais de intervenção eram um método assumido que, dada a multiplicidade e contradição de interesses, se prolongavam por dias e dias até à madrugada. Muitas vezes a essência e eficácia do trabalho residia mais na capacidade de fazer entender objectivos e criar pontos de convergência do que na concepção inerente às soluções. As recém criadas Reserva Ecológica Nacional REN e Reserva Agrícola Nacional RAN, por serem um dos mais importantes e solitários instrumento ordenamento territorial na época, eram totalmente repudiados porque incompreendidos. A voz dos técnicos de planeamento tinha dificuldade em se fazer ouvir. É preciso não esquecer que os meios auxiliares de comunicação eram muito diferentes dos actuais. Sem computadores, nem “PowerPoint” nem vídeo portátil era fundamental encontrar meios outros de suporte à explicação dos projectos. Recorria-se, então, ao apoio dos equipamentos escolares em que as projecções de slides, a projecção de transparências, eram o suporte mais divulgado. Dada a grande importância dos métodos de comunicação a OA desenvolveu metodologias específicas recorrendo à realização de cinema sonoro de 8mm (super8), a diaporamas (projecção múltipla sincronizada com banda sonora), edição de banda desenhada, ilustração gráfica e exposições interactivas incluindo pavilhões com o que actualmente se designam de “instalações”, em que o multimédia estava presente através destes meios. Para a produção destes “multimédia” a OA formou equipas em que participaram um conjunto significativo de ilustradores, autores de textos, criadores musicais, actores e locutores vários.

Desde o tema do loteamento clandestino, passando pela habitação, infra-estruturas, transportes, defesa do património, até à organização do poder local, todos estes temas preencheram vazios de conhecimento ou explicitaram estratégias territoriais.Nos projectos de arquitectura respondendo à dinâmica popular desenvolveram-se soluções para habitações e para equipamentos passíveis de serem construídas, com paredes autoportantes e recorrendo sobretudo ao tijolo (adquirido ou fabricado pelo próprio) incorporando sistemas de aquecimento por painéis solares. Estávamos longe de adivinhar, então, que esta forma de encarar a arquitectura e que correspondia a uma tentativa genuína de responder a uma problemática real, viria, ser denominada uma década e meia depois como “sustentabilidade”.
Esta visão e capacidade adquirida serviu-nos para, durante anos, organizar seminários de sensibilização de autarquias para os temas, metodologias e sistema legal afecto ao planeamento, em Portugal e, posteriormente, em Cabo Verde.

Com o crescimento das actividades tornou-se necessário encontrar movas instalações. Em 1983 em plena crise económica a OA mudou-se para a actual localização em Santos, o que representou um enorme esforço financeiro. Pouco depois o Francisco Sequeira que optou residir nos Estados Unidos, vendendo a sua quota a Filipe Marchand.
Nos anos 80 a defesa dos valores territoriais e patrimoniais não constituía a agenda das grandes preocupações da administração ou dos principais agentes sociais e económicos. Defender a costa Sul do país, impedir a proliferação de clandestinos, defender o património construído, promover o desenvolvimento das comunidades locais, preencheram o principal espaço para intervenção em que a OA se empenhou, constituindo-se como equipa técnica mediadora dos interesses e das práticas contraditórias entre os dois níveis de administração: o local e o central.
Foi o reconhecimento dessa mais valia na compreensão dos fenómenos, na determinação dos conflitos e estabelecimento de estratégias que abriu à OA as perspectivas de desenvolver Planos Integrados de Desenvolvimento Distritais, que foram nesse momento os primeiros modelos de organização regional do território transcrevendo uma visão estratégica de desenvolvimento, que se constituíram como o contraponto do Poder Local Associado às Operações Integradas de Desenvolvimento que eram então o suporte da distribuição dos primeiros fundos europeus destinados ao desenvolvimento regional.
Este modelo de desenvolvimento regional associado a uma visão estratégica foi decisivo para a posterior contratação das redes Europeias de cidades RECIT, MECINE STRATCULT para orientação metodológica dos respectivos Planos Estratégicos.
Já nessa altura eram cinco os sócios da OA por aquisição de uma parte das quotas pelo Delfim Canas.
Desenvolvimentos tecnológicos
O primeiro grande avanço tecnológico de que directamente beneficiámos, é a generalização do telefax, por outras palavras a transmissão de uma fotocópia à distância. Não será difícil imaginar os ganhos que esta tecnologia trouxe para a relação entre gabinetes de projecto e entre estes e os clientes e administração.
A partir dos meados da década de 80 surge o primeiro sinal que novos meios tecnológicos vão transformar radicalmente os modos de produção:

Fabricado pelo Sr Sinclair surge o primeiro microcomputador pessoal de grande divulgação, o ZX SPECTRUM que com apenas16 Kb, mas com preço acessível, rasga os horizontes da informática para todos aqueles que estavam completamente arredados dessa área do conhecimento tecnológico. Em muito pouco tempos surgem milhares de programas e jogos (guardados em cassetes áudio e reproduzidos por gravador de som), muitos deles desenvolvidos por curiosos e milhões de utilizadores. A sua linguagem de programação “basic” permitia a incursão fácil no domínio da programação. É assim que a OA dotada de um “super” 48 k tenta elaborar o primeiro tratamento estatístico informatizado dos inquéritos do PDM de Santiago do Cacém. Durante mais de 48 horas o “desgraçado” do minicomputador trabalhou num silêncio absoluto. Quando, desanimados pela inércia informática, desistimos e nos dirigíamos à ficha para o desligar, num repente, perante uma plateia de técnicos boquiabertos começou a debitar paulatinamente os almejados resultados do tratamento desse inquérito. Quarenta e oito horas representaram, então, um enorme ganho face aos tempos necessário para um tratamento manual, mas um tempo incompreensível face aos poucos segundos em que é possível que fazer hoje tratamentos muito mais complexos. A seguir ao Spectrum veio o QL, depois o Amstrad e trabalhando em ambiente DOS aparecem os primeiros PC de uma série que domada pelo Windows continuou até hoje. O primeiro Autocad apareceu, então oferecido sem preço (mal sabíamos nós...). Muito dispendiosos foram os primeiros 10 megas de disco rígido que foram precisos comprar, cerca de 100 contos.
Nesta súbita revolução tecnológica vão desaparecendo dos escritórios e ateliers as tradicionais profissões auxiliares (desenhador, dactilógrafos), extinguindo se com estes, também, os familiares barulhos ritmados pela campainha de retorno do rolo das máquinas de escrever, substituídos pelos persistente e incomodadtivo ruído de palhetas das incansáveis das impressoras de agulhas. Com um reinado efémero mas espectacular entram pela porta grande dos ateliers os estranhos aparelhos capazes de transformar em papel os vectores que os CAD foram acumulando na representação arquitectónica. Num zigzag aparentemente ilógico e sem sequência compreensível papel e canetas tocam-se num bailado de riscos a velocidades estonteantes anunciando a sentença de morte da profissão de desenhador que, assim, por este tapete monstruoso, vê arrancadas da sua mão as canetas que foram as ferramentas de uma vida.
Seleccionados entre mais de 100 concorrentes para elaborar uma proposta final para pavilhão de Portugal na Exposição de Sevilha também a OA apostou decididamente nos meios informáticos incluindo modelação virtual a 3D.

Desse concurso ficamos com o gosto amargo do segundo lugar e com uma maqueta difícil de guardar ou destruir, mas a certeza de que não poderíamos dispensar mais os meios informáticos acabados de nascer.
Década II 1990 – 2000
Avanços tecnológicos
No dobrar do século há avanços tecnológicos que transformam os modos de trabalho: a impressão de documentos e desenhos recorre sem qualquer dificuldade ao uso da cor. A impressão por jacto de tinta ou por lazer generaliza-se e volta a haver silêncio tecnológico nos gabinetes de arquitectura; A Microsoft cria a MSN (Microsoft Network) que comercializa através do Windows 95 preparado para o acesso via linha telefónica a números específicos da própria MSN que fornecia os conteúdos. A Internet começa, assim, a ser uma realidade embora com velocidades de transmissão muito baixas. A divulgação da World Wide Web (WWW) e a utilização do hipertexto formatam a Internet tal como a conhecemos..

Surgem os primeiros navegadores web e motores de busca. Os Computadores nos ateliers comunicam entre eles. A informação necessária é excessiva para os floppy disk, depois para as as disquetes e inventam-se as ZIP da Yomega que virão a ser destronadas pelos CD-ROM. A modelação em 3d generaliza-se e começam as primeiras experiências de trabalho colaborativo através de linhas de maior débito. Os renders e o tratamento de imagem passa a ser vulgar. O ambiente Windows generaliza-se fazendo esquecer rapidamente a linguagem DOS e acolhendo os programas de tratamento de texto de cálculo de bases de dados ou de apresentações. É a Década da Microsoft.
Contexto profissional
Com a mudança de década surge o decreto-lei 69-90 que impõe aos municípios a obrigatoriedade de elaborarem os seus Planos Directores, agora menos estratégicos, mais orientados para a gestão territorial menos preocupados com o desenvolvimento sócio-económico. Começa então o deprimente período dos PDM elaborados a granel. Abandonam-se metodologias, preocupações de rigor técnico, ou mesmo de técnicas de planeamento, o diálogo e a participação ficaram reduzidos a meras formalidades. Foi o momento em que nasceram como cogumelos equipas de planeamento, embora poucas tivessem sobrevivido para além dos planos que deixaram para ratificação. Enquanto até 1990 apenas 3 PDM haviam sido ratificados, entre 1990 a 1994 foram ratificados 109 planos e 1995 e 1999 foram ratificados 140. Foi profícuo o carimbo da administração, mas já então a história da elaboração dos PDM está longe de atestar qualidade, rapidez, adequação. Mas foi também este o tempo de viragem que despertou a administração autárquica para a importância dos instrumentos de gestão territorial e em que começa a reconhecer se que há mais planos para além do PDM. É também nesta década que a administração central começa a assumir algumas das responsabilidades de planeamento que até então negligenciara. Surgem os primeiros Planos da Orla Costeira (POOC), de áreas protegidas e a primeira geração de Planos Regionais PROT.
Pressionados pela integração europeia num mundo se evidencia cada vez mais global, as cidades acordam para as questões da competitividade, das redes de cidades, de marketing urbano. Entram na agenda do planeamento autárquico, a visão prospectiva, a participação dos actores, a concertação de interesses, o contrato de cidade, a hierarquia de objectivos, o desenvolvimento a monitorização de resultados. O que os PDM haviam perdido no enquadramento legal de 1990 era agora recuperado nesta nova figura de planeamento reconhecida, mas não institucionalizada. O governo apoia este tipo de planeamento nas chamadas cidades médias, através do programa PROSIURB (1994) e mais uma vez alimenta a iniciativa através da canalização de meios financeiros para os projectos justificados no âmbito dos Planos Estratégicos. Está ainda por fazer a história do contributo destes Planos para uma visão integrada e para uma política de cidades. A falta de rigor metodológico e a negligência na apropriação destes planos como instrumentos políticos de decisão local, descaracterizou-os para uma visão estritamente utilitária de obtenção de fundos.
A nossa vivência profissional
A metodologia de planeamento estratégica esteve presente desde os primeiros trabalhos de planeamento da OA, nomeadamente no projecto de Recuperação do Centro Histórico de Évora que fundamentou a sua classificação como património da humanidade pela UNESCO em 1984, e nos Planos Integrados de Desenvolvimento Distrital, o que justificou a consulta pela Rede Europeia de cidades médias RECIT para o apoio técnico orientador para a elaboração dos respectivos Planos Estratégicos e elaboração de um Guia que foi publicado em 1995 em Inglês e Francês e em 1997 pela DGOTDU.

Desde sempre que a OA privilegiou o interesse de que a elaboração de planos e projectos passasse por uma proximidade muito grande aos locais de estudo e intervenção. Assim aconteceu em Évora, Santiago do Cacém, Ponta Delgada, Faial, Angra do Heroísmo, Cidade da Praia, em que se criaram “Gabinetes Locais do Plano” dotados de meios técnicos e humanos, ou na Madalena onde durante mais de um ano foi instalado um gabinete local para a recuperação das habitações destruídas ou danificadas pelo sismo de 1998.

Balanceada pela experiência dos planos distritais não foi difícil à OA apresentar uma proposta ganhadora para a elaboração de um dos primeiros PROT para uma das zonas mais sensíveis do país: o litoral Alentejano. A complexidade de valores e interesses em jogo implicou a necessidade de um estudo regional de ordenamento e desenvolvimento com uma forte componente estratégica e programática que infelizmente não teve acolhimento no documento final do PROTALI que foi formatado como um mero plano de ordenamento.
São variados os trabalhos realizados em várias cidades ou municípios estrangeiros. De facto esta foi a década da internacionalização da OA, quer através dos projectos que desenvolveu em vários países, quer através de vários projectos de investigação que desenvolveu com várias instituições Europeias.

Década III 2000-2010
A meio da década, em 2006 o Filipe Marchand vende a sua quota aos outros sócios. Dos quatro sócios iniciais permanecem três mais o Delfim Canas
Contexto tecnológico
Transmitir informação passa a ser instantâneo, as redes internas e externas entre computadores propiciam o trabalho partilhado e a colaboração independentemente do lado do mundo onde se trabalhe. Vulgarizam-se as redes sem fios, a informação técnica já não depende das bibliotecas mas cada vez mais do acesso à Internet e o telemóvel passa de objecto de luxo e de desejo a vulgar e generalizado utensílio pessoal. Os limites para o transporte pessoal de grandes quantidades de informação desvanecem-se sendo galopantemente ultrapassados, morrem flopys, disquetes e discos ZIP e qualquer pessoa através de uma simples porta USB pode em poucos segundos carregar para o seu bolso várias enciclopédias.


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No entanto, para nós, um dos mais importantes ganhos tecnológicos para a nossa profissão aconteceu em 2005, quando a Google (empresa nascida na dobra do século) colocou gratuitamente à disposição imediata e gratuita as imagens de satélite de todo o planeta num sistema facílimo de utilizar. Para quem trabalha em planeamento e que estava permanentemente dependente de fotografia aérea ou aquisição a preços proibitivos das imagens de satélite IKONOS, LANDSAT ou SPOT esta foi a grande alteração tecnológica. Pode-se dizer que a partir daí nunca mais a profissão foi a mesma!

Contexto social
Esta década é a da consolidação da Lei de Bases de Ordenamento do Território e de Urbanismo (LBOTDU) assumindo novamente a vertente estratégica dos instrumentos de gestão territorial, sobretudo no caso dos PDM, e que se constituem como regulamentos essenciais para vincular os particulares, abrem a porta a mecanismos compensatórios importantes, e clarifica o âmbito das diferentes intervenções. A clarificação dos sistemas e indispensável justeza dos objectivos foi revolucionária para o sistema e prática do planeamento em Portugal. O facto de pela primeira vez o Governo ter assumido a responsabilidade de um Plano Nacional para o Território (PNPOT) levaria a crer que finalmente poderá haver eficácia num sistema de planeamento territorial em Portugal. . Tal como em todo o mundo ocidental, também em Portugal o enlace entre o sistema financeiro e o imobiliário intensificou se fortemente nesta década o que implicou que a vertente instrumental da gestão urbanística se sobrepusesse claramente à débil componente estratégica do PDM. A panóplia de documentos legais subsequentes é quase incontrolável. As sobreposições de poder e interferências de competências em cada nível da administração e a complexa teia de implicações dos Instrumentos de Gestão do Território, nomeadamente sobre os interesses dos proprietários e promotores tornou viscoso o que se queria escorreito e promoveu opacidade onde se desejava transparência De tal forma a determinação de interesses se faz através do uso do solo e tão ineficiente é o controlo do Estado quanto é excessiva a produção legislativa que, neste final da década, mais facilmente se encontram gabinetes de advogados intervenientes no processo de planeamento do que gabinetes de planeamento.
A nossa vivência profissional
Satisfeitas as essenciais infra-estruturas básicas o olhar para as cidades elege, agora novas questões prioritárias como a coesão social, a eficiência energética, a preservação, recuperação e uso do património, a regeneração dos tecidos urbanos, a qualidade dos espaços públicos, a acessibilidade e mobilidades dos habitantes. O papel estruturante e exemplar da intervenção pública dificilmente se fará sem a parceria com outras entidades, seja na edificação de equipamentos âncora, seja na requalificação urbana seja na capacidade de mobilizar os parceiros. A rentabilidade social destas intervenções implica criatividade associada à multidisciplinaridade, à complementaridade funcional e a adequada articulação espacial que assegure a convergência de esforços.

Cada vez mais a OA tem vindo a orientar a sua intervenção urbana com esta visão, seja em projectos de equipamentos públicos, seja de espaços públicos. Talvez o projecto mais paradigmático desta visão que liderámos, seja o projecto “Relousal”, iniciado em 1995 orientado para a revitalização de uma comunidade mineira onde a vida ficou interrompida pela desesperança no futuro e para o qual vários parceiros públicos e privados se uniram na convergência de uma aposta traduzida em várias vertentes do desenvolvimento. Se este projecto for sucesso que almejamos, demonstrará justeza dos caminhos que percorremos e ficará indissociável da história que a OA apostou construir.

A Mónica Marques adquire parte da quota dos outros sócios e entra para a sociedade.
Três décadas
Como gabinete de projectos atravessámos quase todo o período pós 25 de Abril. Ao longo de trinta anos interpretámos, questionámos e aplicamos um quadro legislativo em permanente evolução que determinou a toda a nossa actividade. Acompanhamos o país nas suas profundas transformações sociais, políticas e administrativas e territoriais. Colaborámos com muitas centenas de técnicos, Conhecemos e trabalhamos com inúmeros autarcas em centenas de autarquias. Enchemos de experiência e reflexão a nossa vida. Adaptamo-nos e adaptamos a inexorável e acelerada evolução tecnológica. Abandonámos lâminas, rotrings e estiradores, a tecnologia voltou a ser silenciosa. Apenas uma excepção: - o nosso fiel e respeitável frigorífico, agora com mais 3 décadas ao qual, devido à idade, já não há maneira de evitar aquela permanente e irritante vibração do motor.